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“Liberdade Caça Jeito”: Uma Perspectiva Psicanalítica Sobre as Novas Formas de Subjetivaçãoda Sexualidade e do Gênero

RESUMO

A sexualidade humana sempre tem sido um dos temas mais conturbados para a cultura. Há uma tentativa massiva de normatizá-la e enquadrá-la como algo fixo e importante para a perpetuação de uma “sociedade sadia”. Movimentos sociais emergindo com discussões que põem em xeque a visão tradicionalista, trazem para o campo do saber as possibilidades da existência humana e as potencialidades do próprio corpo. O presente artigo pretende desenvolver uma análise sobre o esmiuçamento da sexualidade humana pela psicanálise freudiana e lacaniana e como é possível, a partir dela, pensar sobre as atuais e emergentes questões de gênero, considerando a dimensão histórica e cultural.

Palavras-chave: Sexualidade. Gênero. Psicanálise. Subjetividade.

1.      INTRODUÇÃO

A Psicanálise tem se debruçado, década após década, a desvendar as nuances inconscientes que constituem o sujeito e, deste, os mecanismos que o operam junto com a sua invariável contribuição no contexto em que se insere. A sexualidade participa de todos esses mecanismos que circundam a personalidade e marcam a nossa presença no mundo coordenados por exigências sociais que se colocam em clamor de uma postura narcísica que diga algo sobre como se deve ser no mundo e o que desejar, prevalece-se um Eu Ideal que livre o sujeito da angústia da castração e um Ideal de Eu comprometido com a rigidez moralista da cultura. Desse modo, a tendência neurótica para se sair de uma crise é fazer com o Ideal de Eu se satisfaça com o Eu Ideal.

Na contemporaneidade, há um leque gigantesco de discussões sobre os limites do Estado sobre o corpo e o desejo, assim como um vislumbre diversificado das formas de ser no mundo. Propiciado pela ascensão dos movimentos sociais feministas e de diversidade sexual, sexualidade e gênero ganharam papéis centrais nas discussões políticas, religiosas, familiares, laborais e, no meio disso tudo, há o cunho individual em que se fundamentam as ideias do que é um e outro, assim como o seu ideal. Nesse ponto, a psicanálise tem muito a falar e, como sempre, desvendar.

Desde as primeiras proposições teóricas, a psicanálise pôs a mulher num papel central com a descoberta da histeria e discorreu sobre ela, à priori, como sendo uma leitura da sexualidade feminina, ou sexo feminino, ou mulher. Discussões se geraram sobre o tema até que o próprio Freud considerou a ideia de que estrutura psíquica não é rigidamente estática e determinante pelo componente anatômico e biológico.

Aparentemente uma constatação simples que, na verdade, trouxe uma revolução para se pensar a sexualidade humana sobre os vieses que, anteriormente, não se dispunham como possíveis. Afinal, quem agarrava essa cadeia significante sobre o humano e sua sexualidade, até então, eram três instâncias: o Estado, a Igreja e o discurso médico rudimentar. E hoje, do que se trata a sexualidade humana e o gênero? Essas concepções falam sobre a mesma coisa ou falam de algo a mais? Como a noção de identidade e corpo aparecem no psiquismo?

Queremos, no entanto, discorrer sobre como a sexualidade é entendida à luz da psicanálise freudiana e lacaniana e, a partir dela, como o gênero aparece, seja numa perspectiva individual, seja numa ideia de como a cultura o compreende e, à rigor, o impõe enquanto Ideal de Eu atrelado ao conceito biologizante da sexualidade. Utilizando-se disso, nos questionaremos sobre como a concepção subjetiva e cultural de gênero se amplia e se dilui no corpo e no desejo.

2.      A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE EM  FREUD

Falar de sexualidade, em Freud, é falar também sobre o conceito de pulsão que trouxe um norte a essa nova compreensão àquela época. Honda (2011) pontua que o conceito de pulsão aparece como um “conceito-limite ou conceito-fronteiriço” (p. 406), estando situado no limite entre o psíquico e o somático. A libido, por sua vez, é a energia da pulsão, e quem viabiliza a satisfação, mesmo que parcial, ao alcançar seu destino. Podemos fazer uma analogia entre psicanálise e arte que são frequentes para discorrer sobre a sexualidade. É o que fez Auguste Rodin, o artista das esculturas em “carne viva”, no côncovo das mãos se deposita a potência da palavra que é redita:

Fotografia – Auguste Rodin. Mãos de Amantes,1904.

Fonte: Museu Rodin, Paris

A sexualidade, como o senso comum o compreende, até hoje é um tabu e, por isso, tratado com certa marginalidade. Pensar isso nos dias de hoje, invariavelmente, nos leva à época de Freud, em que o discurso médico se baseava pura e simplesmente numa concepção biologizante, muitas vezes corroborando com o que a Igreja dizia. Esse fato nos evidencia o quanto de euforia não deve ter causado na época seus estudos e não de forma positiva.

Coutinho Jorge (2007, p. 31) afirma que, “antes de Freud, não há propriamente um conceito clínico sobre a sexualidade”. Desse modo, abria-se um amplo leque de possibilidades conceituais, o que diminuía ainda mais as chances de algum investigador oferecer uma noção que compreendesse a magnitude do tema, mesmo que bem fundamentado. Uma das grandes tentações que, na época de Freud, se cedia era a de patologizar a sexualidade. Essa ideia traz à tona que, qualquer expressão sexual fora do convencional era considerado como doença e, logo, buscado tratamento supostamente adequado para a sua aparente cura.

Freud adentra de vez à concepção de sexualidade em 1905 com sua obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. Amaral (1995) aponta que essa obra não tem uma perspectiva conclusiva, deixando abertas várias questões e, algumas delas, divergentes, como a tese sobre pulsão sexual. Freud, nessa obra, já trouxe a noção da existência de uma sexualidade infantil através da presença de tendências perversas enquanto fator constitutivo do sujeito.

Amaral (1995) ainda discorre que, mesmo não havendo uma menção direta ao narcisismo, conceito posterior, há uma gama de fatores que discutem sobre o surgimento do sujeito psíquico e o autoerotismo se faz presente nesse ponto. Freud identificou que a sucção voluptuosa do bebê marca a expressão dessa sexualidade. Como ele ainda não conhece nenhum objeto sexual, é autoerótico, acaba dominado por uma zona erógena. A libido é voltada para si. Da mesma forma discreta, nessa obra é constatável, além da presença da ideia de uma sexualidade infantil oral através da sucção e voracidade, a sexualidade anal, através dos excrementos.

No terceiro ensaio, Freud traz a concepção de que a sexualidade adulta deriva de resquícios da sexualidade infantil. Se na infância há destinos bastante específicos, na puberdade há uma subordinação dessas zonas erógenas à genital e, com isso, há uma obtenção constante e massiva de prazer, onde Freud, à priori, considerou ser de cunho reprodutivo, o que ratificava a normatividade da época.

Freud (2006) sinaliza que na puberdade a sexualidade encontra o objeto para o qual foi preparado durante a infância. Posteriormente, abriga a ideia de que a escolha objetal trilha o caminho deixado pela relação mãe-bebê. É possível pensar, então, que o primeiro objeto sexual do bebê é o seio materno, visto que a satisfação sexual estava atrelada à alimentação, desse modo, a pulsão encontrou seu objeto fora do próprio corpo.

Observa-se que a pulsão não está estritamente presente desde o início, o autoerotismo ganha outro contorno quando deixa de ser arquitetado como condição originária, sendo formulado na relação. “Assim, não restam dúvidas de que encontrar o objeto é, reencontrá-lo”. (WARMLING, 2019, p. 33)

Freud atravanca as concepções da época ao constatar que a sexualidade não é uma prerrogativa da vida adulta e utilizada estritamente para os fins biologizantes e organicistas a que se propunha. Não é algo dominável, mas que escapa, escorrega. Vieira (2019) pontuou que “fazemos sexo para tudo, até para procriar”. A vida adulta, portanto, é marcada por esse fator de reencontro do objeto sexual perdido na infância. Esse delimitador marca todas as relações afetivas que o sujeito se depara ao longo da vida.

A sexualidade, em Freud, concebe uma questão muito maior, sendo marca de expressividade, saúde, patologia e base para a constituição psíquica. Ela parte de um desejo incestuoso cuja origem se encontra na pulsão e que nunca é satisfeito, ou cuja satisfação sempre é parcial, pois essa tendência ao gozo absoluto, invariavelmente, implica na morte.

Freud (2006) postula que o impulso sexual é constituído de outros diversos impulsos parciais que se dispõem às mais diversas configurações de prazer em diferentes partes do corpo. Amparados pelas zonas erógenas, o impulso parcial pode se espalhar pelo corpo, pois não possui um objeto fixo.

Ceccarelli (2017, p. 137) afirma que “toda atividade sexual testemunha um percurso pulsional particular, traçada pela singularidade da história de cada um, o que impossibilita a tentativa de criação de uma ‘norma sexual’”. Compreendemos, a partir dessa consideração, que a normatividade da vida sexual é um erro grotesco e pretensioso, pois a diversidade psíquica que opera nesse mecanismo pulsional é demasiadamente gigante para ser ignorada ou enquadrada num nível tão raso quanto o perpetrado culturalmente.

Coutinho Jorge (2010, p. 117) diz que “o inconsciente é exatamente o verdadeiro intermediário entre o somático e o psíquico. Talvez, o missing link, o elo perdido, tão procurado”. E como tal, é indomável, irrefreável, posto que seu conteúdo guarda os registros do material reprimido que o sujeito vivenciou e recalcou. Desse modo, o sujeito está fadado a confrontar o retorno do recalcado que, seguindo os impulsos do inconsciente, tende a escapar. É ele quem esconde os porquês de todas as ações humanas e rege as preferências que se adota durante a existência.

Essas idéias [sic] são registradas no inconsciente, passando a integrar o seu sistema de memória e condenando o eu, doravante, a experimentar os seus retornos sucessivos como um corpo estranho incompatível com a sua consistência imaginária. O recalque não elimina a representação indesejável, mas simplesmente isola-a psiquicamente. As idéias[sic] de caráter aflitivo passam, desde então, a formar um grupo associativo separado da consciência, organizando-se de acordo com leis associativas diversas daquelas que regem o eu consciente, condenando-o a uma luta permanente contra o retorno do recalcado em derivados substitutos do inconsciente, sob a forma de uma tenaz resistência. (BARATTO, 2009, p. 83).

Atuando nessa fronteira, procura uma forma de se evadir, de gritar, de evidenciar sua presença e, a marca que ele mais ratifica é esta: a sexualidade humana é múltipla, diversa, sem destino específico, latente, mas sempre pronta a mostrar que, mesmo conflitante, é maleável. Se o sujeito é, sobretudo, sexual, a via régia dessa manifestação está em toda parte, no corpo, na sublimação. Mendes (2011) pontua que, ligada a uma origem sexual, a libido pode criar caminho em atividades não sexuais, ou seja, sublimatórias, que são cultural e socialmente aceitas, como a arte, o esporte, a ciência.

2.1 Contribuições freudianas e lacanianas sobre gênero

Ceccarelli (2017) defende que há um consenso de que Freud não desenvolveu uma teoria de gênero, no entanto, seus estudos não o excluem. O mesmo autor faz um breve apanhado sobre as menções que Freud faz à questão do gênero em sua obra. Em Sobre as teorias sexuais infantis de 1908, Freud considerou que a diferença anatômica seria secundária e o gênero seria a base de uma distinção identitária.

Nesse sentido, o gênero viria primeiro, embora seja o sexo que o determine: é a partir da percepção anatômica que o gênero é atribuído ao recém-nascido. Vemos que, para Freud, o sexo é natural: a anatomia é o destino. (CECCARELLI, 2017, p. 141)

Freud considerava que o gênero, enquanto referência advinda do outro, se apresentava de forma natural, de acordo com o marcador biológico determinante para tal. Mas não reduz o gênero à presença de vagina e/ou pênis. Para ele havia outros fatores que localizavam o indivíduo no gênero masculino ou feminino, sendo a anatomia apenas uma forma de destinar os impulsos sexuais.

Ceccarelli (2017) ainda retorna para 1905, em Três Ensaios, onde Freud escreveu sobre a “Teoria popular sobre pulsão sexual” (de gênero); em 1914, sobre o Narcisismo, Freud propõe pesquisar esse investimento sexual no próprio corpo por três vieses: da psicose, da doença orgânica/hipocondria e da vida amorosa entre os sexos (gêneros).

A construção realizada por Freud acerca de gênero nos leva a uma concepção ainda informe sobre a grandeza que o tema possui na atualidade. Certamente, vivenciando nossa época e discutindo com os movimentos sociais, o gênero seria um de seus objetos de estudo a fim de mergulhar nas tramas inconscientes que estão por trás desse novo paradigma.

No entanto, Freud (2006) não chega a ser raso quando deixa explícito em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade que o masculino e o feminino podem ser pensados sob três vieses: o de atividade versus passividade, o biológico e o sociológico. O autor traz para o foco o enigma que a ciência ainda não conseguiu dar conta, seja devido à sua amplitude, seja pela inconsistência de saberes ou pela maleabilidade que a sexualidade como um todo apresenta.

É indispensável deixar claro que os conceitos de “masculino” e “feminino”, cujo conteúdo parece tão inambíguo à opinião corriqueira, figuram entre os mais confusos da ciência e se decompõe em pelo menos três sentidos. Ora se empregam masculino e feminino no sentido de atividade e passividade, ora no sentido biológico, ora ainda no sentido sociológico. O primeiro desses três sentidos é o essencial, assim como o mais utilizável em psicanálise. A isso se deve que a libido seja descrita no texto como masculina, pois a pulsão é sempre ativa, mesmo quando estabelece para si um alvo passivo. O segundo sentido de masculino e feminino, o biológico, é o que admite a definição mais clara. Aqui, masculino e feminino caracterizam-se pela presença de óvulos e espermatozóides, e pelas funções decorrentes deles. A atividade e suas manifestações concomitantes — desenvolvimento muscular mais vigoroso, agressividade, maior intensidade da libido — costumam ser vinculadas à masculinidade biológica, embora essa não seja uma associação necessária, já que existem espécies animais em que essas propriedades correspondem antes na fêmea. O terceiro sentido, o sociológico, extrai seu conteúdo da observação dos indivíduos masculinos e femininos existentes na realidade. Essa observação mostra que, no que concerne ao ser humano, a masculinidade ou a feminilidade puras não são encontradas nem no sentido psicológico nem no biológico. Cada pessoa exibe, ao contrário, uma mescla de seus caracteres sexuais biológicos com os traços biológicos do sexo oposto, e ainda uma conjugação da atividade e da passividade, tanto no caso de esses traços psíquicos de caráter dependerem dos biológicos, quanto no caso de independerem deles (FREUD, 1905/2006, p. 207).

Freud esboça a forma como a linguagem se ampara no gênero para cumprir com uma designação inflexível. Há algo que toma outro algo por referência. Por uma questão de tradução, não temos acesso ou conhecimento para considerar as palavras e significantes que circundam os escritos freudianos. Na linguagem, a binaridade do gênero se desloca para a posição ativa ou passiva, sendo a ativa constituída pelo masculino e a passiva pelo feminino. No entanto, vemos que o Dicionário da Língua Portuguesa classifica as palavras “ativa” e “passiva” enquanto substantivos masculino e feminino ao mesmo tempo, a definir pelo contexto.

Além desse dado que media as obras freudianas traduzidas para a língua portuguesa, há também um componente que ele mesmo recria em seu texto, que é a compreensão de que “ativo e passivo” se tornam sinônimos de macho e fêmea quando considerado o conteúdo orgânico, como hormônios, musculatura, apetite sexual. Embora retorne ao ponto de que há espécies na natureza a quem essa máxima não se aplica, visto que se invertem, é possível observar que o tom semântico é o mesmo. Gênero e linguagem se vinculam e são indissociáveis. Freud não se ateve à gênese da questão, mas deu o primeiro passo para que outros teóricos se aprofundassem.

O terceiro viés para gênero o qual Freud explana trata da questão sociológica. O autor traz a ideia de que o masculino e o feminino são plurais e não se apresentam no psiquismo ou na biologia de forma integral, mas há uma mistura das conjunturas sexuais masculinas e femininas no mesmo sujeito, assim como uma junção da atividade e da passividade que podem derivar ou não do biológico.

Lacan (2008) defende que no psiquismo não existe algo em que o sujeito se ancore para se localizar na binaridade masculino-feminino. Para ele, tanto as atribuições sociais como as individuais de gênero são dadas através do outro, enquanto função constitutiva do sujeito. Invariavelmente, o outro está banhado pela cultura em que se insere e é dela que ele herda essa tendência à manutenção do status quo.

Lacan, ao tocar nesse ponto, traz implicitamente que é do outro que herdamos nossas referências, tão importantes e balizadoras na construção do psiquismo. É a partir do outro e da capacidade do sujeito de dissociar dele que se estabelecem as construções subjetivas constitutivas, o desejo, como parâmetro para pensar as coisas e questioná-las. Se o sujeito é banhado de significantes pelo outro, é a partir dele – e somente dele – que o sujeito é inserido na linguagem, na falta, no desejo.

 2.2 Gênero e identidade

Cossi (2019, p. 310) lembra que “o processo de constituição do sujeito como homem ou mulher, na trama edípica, é histórico ou cultural, portanto, não predeterminado”. A ideia de gênero, definido ou classificado pelo arranjo anatômico do bebê, serve a uma composição identitária e é dela, subjugada. Há algo muito maior que se coloca para além da questão do gênero, que é a questão da identidade como unidade representada na pluralidade.

Starnino (2016) cunhou que estamos destinados às inúmeras possibilidades de identificação que temos ao longo da vida. Primeiro no seio familiar, depois nas instituições às quais fazemos parte, como escola, universidade, comunidade, grupos, igreja, etc. O sujeito é apresentado aos ideais identitários desde cedo e, a partir dele, molda seu desejo em resposta à essa demanda externa.

As escolhas inconscientes, segundo Lacan (2016), respondem ao eu ideal enquanto instância do narcisismo primário onde a identidade, ainda não maturada, torna-se um objeto da expectativa do outro, ou seja, a criança atende, inconscientemente, às demandas inconscientes de seus pais. Após o Complexo de Édipo, surge o substituto simbólico à essa instância imaginária, o ideal de eu. Nele, emergem figuras identificatórias de fora do seio familiar, mas que partem das mesmas referências, como professores, mestres, figuras de poder, autoridade, etc.  É a partir do ideal de eu, enquanto ideal regulador, que os laços de afeto se apresentam, visto que as estruturas de admiração permitem idealizar como o sujeito pode responder ao desejo, embora se mostre como instância inatingível. Portanto, a identidade do sujeito sempre será faltante, escassa frente às regulações do Ideal de Eu.

Segundo Chauí (2001), o conceito de inconsciente, pressuposto psicanalítico, desconhece os valores moralistas que regem qualquer sociedade, portanto, a compreensão normatizadora da sexualidade e do gênero não só é, por ele, ignorada, como é ampla e incontrolável. O gênero do sujeito, forma de expressão da identidade e da própria sexualidade, também é tecido pelas leis inconscientes, que não considera sua referência anatômica e cultural.

Jorge (1997) infere que o sujeito habita no hiato da designação binária da sexualidade, isto é, entre homem e mulher. Por isso, o sujeito é o próprio sexo ao invés de, deste, ser detentor. Esse pensamento rompe com a concepção de haver dois polos e que o sujeito se localiza num deles, visto que o inconsciente não se compromete com essa dimensão histórica e cultural enrijecida de um suposto lugar do desejo. 

Lima e Belo (2019) apontam que há a possibilidade de um diálogo entre Jean Laplanche e Judith Butler ao discorrer sobre o banho de significantes ou as mensagens enigmáticas que o bebê recebe do adulto. Quando o adulto transmite para a criança seus desejos inconscientes, há um investimento narcísico sendo repassado. Aqui está sendo apresentada também a significação de gênero a esse bebê, que irá cunhar o seu entendimento sobre a sua identidade e o seu próprio corpo, visto que a criança ainda está numa posição passiva frente ao desejo do outro.

Destacando os conceitos de Jean Laplanche e Paulo de Carvalho Ribeiro, Lima e Belo (2019) vem falar que a identificação passiva é realizada por aqueles que circundam o infante, excepcionalmente pelos seus cuidadores, o socius, ao invés de pelo próprio sujeito que ainda não maturou o suficiente para responder ativamente à essas demandas, seja confirmando-as, negando-as ou reelaborando-as. Isto é, mãe, pai, irmãos, tios, avós, cuidadores em geral tem total contribuição nesse processo identificatório.

Assim, na medida em que se tem no colo um bebê identificado ‘pelo adulto’ como menino, os tratamentos, desejos e fantasias endereçados a ele serão radicalmente diferentes daqueles dados a um bebê identificado como menina, pelo valor fantasmático que cada gênero ganha na cultura. (LIMA & BELO, 2019, p. 6)

O significante, puro e simples, não é determinante. Há algo mais complexo que se infere na linguagem e nos comportamentos derivados dos circundantes da criança. Se o adulto, quando infante, assimilou parte dos desejos do outro, a outra parte necessariamente fora abandonada e, por isso, recalcada. Os eventos traumáticos do adulto repercutirão invariavelmente na criança que herdará um desejo que é “do outro do outro”, pertencente ao próprio cuidador, porém herdado do outro, posto o investimento narcísico que é lançado.

3.      discussão

O presente texto nos possibilitou fazer um breve apanhado histórico sobre as concepções de sexualidade e gênero desde Freud e Lacan, até os psicanalistas da atualidade. Através desse apanhado, foi possível dialogar com teóricos que se propõem a desenhar a dimensão histórica, social e cultura acerca da sexualidade humana, identidade e gênero.

Caminhar implica, necessariamente, no avanço da ciência no que diz respeito à ampliação das ideias, mesmo correndo o risco de causar mal-estar na cultura. Outro ponto e que, neste, não podemos ceder é aos avanços em si mesmos, sem referenciais a fim unicamente de balizar uma nova ordem de pensamento social. A falta de referências e testemunho científico, por muito anos, foi a causa da descredibilização dos necessários avanços sociais por parte de setores da sociedade. Nossas investigações, com os à prioris que norteiam, precisam nos deixar atentos a fim de compreender a verdade do que se apresenta a nós, seja na clínica, seja numa leitura da conjuntura social.

As obras freudianas e lacanianas usam o gênero como referência para questões ligadas ao corpo, à sexualidade e à subjetivação, inclusive como objeto de estudo para o desenvolvimento de conceitos tão abissais e fundantes à psicanálise. Freud não faz uma varredura literária acerca disso e, tampouco, procura historicizá-lo. Sua análise se constrói num contexto social tomado pela moralidade, patologização da diversidade e, assim, experiencia as nuances de sua época, rompendo severamente com o pensamento dogmático e científico.

É possível constatar a veemência do inconsciente, seus desdobramentos, sua capacidade de se evidenciar como vivo e pulsante, operado por suas próprias leis. A pulsão, objeto mais plástico da sexualidade humana, é operada pela libido e está aqui presente para testemunhar o atravessamento do sujeito pela cultura e pela linguagem. E é ela também, a cultura, que barra nossos impulsos mais primitivos.

Se por um lado a repressão induz atividades sublimatórias e, por isso, as formas de lidar com a sexualidade ganham performances mais sociáveis, por outro lado ela também tende a normatizar e, consequentemente, patologizar as diversidades sexuais que se apresentam. Chauí (2001) já ressaltou que o inconsciente desconhece e rejeita essa formulação, posto que as compreensões sociohistóricas só regem a realidade externa.

Essa construção psicanalítica abre uma desconstrução sociohistórica do que a sexualidade, operada pelo inconsciente, representa e quais os percursos que ela elabora para o seu desenvolvimento. O sujeito, carregado de pulsões, está fadado a ceder aos impulsos sexuais e os destinos pulsionais podem ser variados. Zonas erógenas se estabelecem, processos sublimatórios à posteriori, mas há sempre um empecilho: a impossibilidade de satisfação ou a satisfação parcial.

As novas formas de subjetivação da sexualidade na atualidade compreendem que a escolha do objeto de amor, assim como a compreensão de corpo e gênero, perpassa processos identificatórios que possuem características dinâmicas. Dizer-se que as escolhas possuem caráter consciente seria preconizar um discurso rudimentar que não considera o aparato científico ou metapsicológico dos fatos.

Desde a segunda metade do século XX, as disforias de gênero ou inversões sexuais deixaram de integrar o rol das patologias, pautando a diversidade da existência, assim como novas referências sobre o papel das ciências sobre esse tema. Identidade de gênero, orientação sexual, sexo biológico e expressão de gênero passaram a ganhar novos referenciais e conceitos a partir dessas novas configurações. Se outrora predominava uma necessidade de patologizar o que fugisse à regra, nesse novo modelo havia a intolerância que se perpetua até os dias de hoje, principalmente nas sociedades mais religiosas, sobre o reconhecimento dessas diversidades. A sociedade ainda caminha a passos lentos nesse reconhecimento e na garantia de direitos às populações em situação de vulnerabilidade devido às questões sexuais.

Ora, não nos parece uma realidade muito distante. Em 2016, orientado pela base fundamentalista religiosa, foi criado na Câmara dos Deputados brasileira um projeto de lei que propunha o tratamento para a reversão da orientação sexual. Esse dado nos faz pensar sobre o quanto os conceitos freudianos, mais de 100 anos atrás, trouxeram burburinho e estardalhaço científico, social e clérigo à época.

Como na época de Freud em relação à orientação sexual, o consenso geral continua rígido em estreita consonância com a moral sexual: sexo, gênero, desejo e orientação sexual continuam a ser entendidos como características ‘naturais’ dos indivíduos. (CECCARELLI, 2017, p. 139)

Vemos que, em Freud, há um rompimento com o pensamento biologizante da época a medida que se discorre sobre os processos inconsciente. Isso nos leva a crer que, em Freud, há, antes de tudo, algo de ordem interna que factualmente é assimilado junto à questão histórica e cultural de gênero: a identidade. Essa, por sua vez, é construída, erigida e arquitetada nos processos infantis como a trama edípica, visto que nela a criança se situa no mundo, de acordo com sua organização interna, desenvolvendo o superego e constituindo um objeto de amor a partir de suas identificações familiares.

A pulsão, objeto mais plástico da sexualidade humana, é a possibilidade de representação do objeto perdido que não tem uma imagem, então pode ser qualquer coisa, por isso nos apropriamos da linguagem, para tentar falar sobre. A linguagem diz que o sujeito sempre tentará dizer algo que não pode ser dito – e nunca será entendido. Se o objeto está perdido para sempre, a fantasia é que dará conta de preencher esse sujeito. A pulsão testemunha o atravessamento do sujeito pela cultura e pela linguagem. E é ela também, a cultura, que barra os impulsos mais primitivos do sujeito, primeiramente utilizando a figura paterna como representante.

Para a psicanálise, não há ideal de eu universalizado, massificado como emprega a cultura, justamente por considerar a dinâmica do inconsciente. O ideal de eu é inalcançável porque é ideal, e é ideal porque é inalcançável. Sempre haverá uma insatisfação, pois, à medida que o sujeito caminha em direção a esse ideal, o ideal dele também se distancia. Enquanto o eu ideal é entendido como uma miragem no narcisismo primário, o ideal de eu é um suporte à essa miragem no narcisismo secundário. Desse modo, cada um tem que se a ver com seu próprio ideal de eu, com seu próprio desejo.

Mudanças no corpo, pequenas ou não, falam de uma insatisfação, uma falta e, à posteriori, um desejo que serve aos impulsos sexuais e que carecem de descarregamento. Se o mundo está mergulhado em possibilidades de existência, concretamente podemos pensar que a liberdade do pensamento trouxe consigo novas formas de aprisionamento. Se para cada falta, um desejo, é verdade também que para cada falta, uma suposta completude que insere o sujeito num ciclo sem fim, haja vista o caráter longínquo do ideal do eu e a impossibilidade de satisfação total. E esse dado, tão comum à neurose, remete à elaboração da diversidade de aparatos fantasmáticos que digam: foi tamponado.

Silva e Oliveira (2013) entendem que nos dias de hoje, a busca pela identidade ganhou uma mescla de possibilidades muito forte e que essa busca não está mais no campo interno, sendo refletida no próprio corpo. A indústria da beleza compreendeu isso ampliando o leque de possibilidades e acessibilizando às classes sociais não tão favorecidas. O próprio Estado começou a oferecer alguns procedimentos, desde que ligados à questão de saúde.

A compreensão do corpo foi se ampliando e as pessoas se apropriando de seus corpos com mais afinco. O movimento feminista, vanguardista que é, traz à tona esse debate sobre quem tem a legitimidade do corpo feminino, mais do que a própria mulher. O Estado, supostamente laico, atrelado à Igreja, supostamente cordial, ainda detém muito desse poderio que marca um aprisionamento da mulher e das diversidades sexuais.

Silva e Oliveira (2013, p. 276) falam que “essas demarcações no corpo podem ser chamadas de acoplamentos, visto que se conectam para a produção da identidade”. Essas modificações possuem efeito prático no grupo social no qual o sujeito faz parte, para a aquisição de uma posição de destaque e vinculada ao sentimento de aceitação e pertencimento.

Se antes as possibilidades mais prováveis de construção e redescoberta da identidade que se refletiam no corpo eram mudanças mais sutis, como no visual através de um corte ou coloração do cabelo ou estilo de roupa, agora as mudanças ocorrem na própria pele ou dela para dentro. A reelaboração externa, fruto de questões inconscientes, está cada vez menos sutil e isso diz muito sobre como o ser humano tem se dedicado a si mesmo como forma de se experimentar, se reelaborar e se mantendo à serviço do desejo.

O desejo, advento “do outro do outro”, que é substancialmente constituído de investimento de ordem narcísica, traça no bebê um caminho para a realização do seu próprio desejo. Atenta às demandas dos cuidadores, através de uma identificação passiva, a criança tomará para si este desejo que, atravessado pela cultura e pela linguagem, se engendra também nas concepções de sexualidade e gênero.

Butler apud Lima e Belo (2019) também apontará os caminhos para a designação da identidade da criança em função do desejo dos pais. Frases como “‘Você será a garota que eu nunca fui’; ‘Você será o homem que meu marido recusa ser’; ‘Você será a garota quando eu precisar que você o seja, e então o garoto quando eu precisar que você o seja’” (BUTLER, 2014, apud LIMA & BELO, 2019, p. 6-7) concretizam a projeção do desejo dos pais nos filhos. Mas Butler vai além. Mais do que pertencer a um gênero ou detê-lo, a questão é sobre o que o gênero exige da própria criança, o que os pais pedem quando idealizam o lugar do gênero na criança e como esta pode atender a esse desejo.

Ser homem ou ser mulher requer, sobretudo, uma conjuntura fantasmática daquilo que a cultura compreende sobre o gênero. A localização binária de gênero, na infância, serve única e exclusivamente, mas não menos importante, como referências para a sexualidade e para o corpo. No entanto, não se pode deixar de fora o caráter esmagador que essas exigências possuem para a criança que, respondendo ao desejo “do outro do outro” através também dos processos identificatórios, não identifica em si mesma uma formação coesa de identidade no próprio corpo.

O sintoma, enquanto acontecimento do corpo, denota uma posição importante a ser considerada sobre o discurso de “ter um corpo”. O “ser um corpo” não se justifica para o homem, uma vez que para a sua identificação é necessário que haja aí uma relação entre o corpo e os seus significantes. (SOUTO et. al., 2016, p. 193)

Por assim dizer, possuir um corpo pressupõe e confirma a existência de instâncias superiores que regem o ordenamento psíquico, onde há algo maior – o inconsciente e seus mecanismos – imperando sobre o caráter identitário e sexual do sujeito. É ponderável pensar também que, na relação entre o corpo e a subjetividade, é necessária uma convergência, um diálogo para que se afirme identitariamente a posição do sujeito frente ao desejo e à castração. É certo que a linguagem só pode ser pensada no campo da relação. Se todo significante carece de significação, então, os significantes que contornam o bebê são fornecidos pelos significantes daqueles que o criaram, considerando o alinhamento (ou desalinhamento) entre discurso e desejo.

Constatamos que não há como aprisionar o sujeito do desejo, pois, como poeticamente expõe o bucólico Manoel de Barros (2001, p. 32) “quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito”. Esse mesmo sujeito sempre encontra uma nova forma de se reinventar, se reencontrar, caçar seu próprio desejo em meio à obscuridade do inconsciente, visto a condição imparável da pulsão.

Da mesma forma, a psicanálise precisa se dedicar ao processo investigatório teórico e clínico para dar conta desse sujeito que chega a clínica com uma nova concepção subjetiva acerca de sua sexualidade e seu gênero. Assim como Lacan (1998, p. 321) infere que “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”. Freud (1898/2006, p. 254, 264) também discorre sobre as novas configurações da identidade da nossa era quando pontua que “há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos – nos quais nossa civilização terá de aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade”. Portanto, acompanhar as demandas da nossa época é uma obrigação que o próprio lugar de analista nos impele através de formação e atualização contínua. Reinventar-se também é tirar-nos do lugar comum a que estamos habituados e circular pelo desconhecido, sempre inevitável, que se coloca na clínica.

4.      CONSIDERAÇÕES FINAIS

Perceber que o ser humano e seus processos internos não possuem caráter estático foi o que levou a psicanálise a ser encarada como uma teoria revolucionária e libertadora, tanto para os conceitos tradicionalistas, como para ela mesma. Freud, na construção da teoria psicanalítica, considerou e reconsiderou vários de seus conceitos devido à maleabilidade observada na trama inconsciente que, apesar de seus processos e suas leis, mostra-se profundo.

Tem sido um desafio para os novos psicanalistas elaborar as compreensões das novas formas de subjetivação da sexualidade e do gênero em arcabouços teóricos que não caiam no tradicionalismo de desqualificar os novos arranjos. Quando os identificamos e os encaramos dentro de desvios tomando como parâmetro as configurações mais clássicas, estamos nos distanciando da compreensão totalitária que respeita a individualidade e a subjetividade do sujeito.

Consideramos que esse campo, vasto que é, ainda tem muito a ser estudado e vasculhado, e não podemos mais esperar para elaborar constructos teóricos, visto a urgente necessidade que a cultura tem tratado do tema e, em suma, à solta. Essas novas concepções se elaboram como qualquer outra, sendo também através dela, que se ancoram as noções de identidade, sexualidade e gênero.

    É necessário considerar que o universo interno do sujeito não necessariamente precisa caber nos nossos livros, caso contrário, a psicanálise perderia o seu caráter metapsicológico que se propõe a avançar à medida que o sujeito saia de seus desarranjos. Assim sendo, a psicanálise é um saber aberto, passível de revisões sistemáticas baseada no que a experiência clínica tem a trazer de novidade.

O destravamento dos novos arranjos, que de novos não possuem nada, nos impelem a falar sobre o sujeito que, em suma, debate com o pensamento filosófico, cultural e social na linha de frente da representação do seu desejo. Esse sujeito que reafirma quem é e a que veio, causando mal-estar e, mesmo assim, sobrevivendo é o mesmo sujeito que busca referências, nomeações, dignidade, direitos.

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