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Reflexões sobre o impacto da pandemia de Covid-19 nas relações conjugais e familiares: contribuições da psicoterapia psicanalítica.

Kerbauy, Renata¹

Barone Bartilotti, Márcia²

Sneiderman, Susana³

…o real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Guimarães Rosa,1956, in: Grande Sertão: Veredas

A pandemia de COVID-19 tem sido caracterizada mundialmente por diversos especialistas como um dos maiores problemas enfrentados pelas populações nas últimas décadas.  Desde seu início, tem ocasionado medo, insegurança e  instabilidade em todos os aspectos da vida, atingindo todos os seres humanos, sem distinções.

Independente de classe social, gênero, raça, nacionalidade, idade, estado civil, entre outras, as fronteiras não puderam deter o contágio, tornando o outro em uma ameaça constante.

Frente a esse cenário, caracterizado por inúmeras incertezas, adversidades e complexidades relacionadas à saúde, a capacidade de alcançar um estado de equilíbrio emocional saudável passou a ser um desafio diário para a maioria das pessoas, alterando de maneira profunda a vida cotidiana e as atividades dos sujeitos na pluralidade de seus aspectos.

O distanciamento social, o confinamento, o excesso de informações, a mudança repentina nos hábitos, o perigo iminente de contágio, a vivência de inúmeras perdas e lutos mais complexos e a redução de renda familiar, são alguns exemplos de importantes situações geradoras de altos índices de ansiedade e angústia em grande parte da população, afetando, sem dúvida, a saúde e a qualidade de vida.

Neste contexto, pode-se dizer que as diversas mudanças e demandas inesperadas trazidas pela pandemia de COVID-19 e seus impactos sociais e econômicos, se tornaram desestabilizadores do psiquismo, implicando aos sujeitos à vivência de uma situação de crise.

As crises, geralmente são eventos imprevistos, que requerem na sua gestão uma grande variedade de objetivos simultâneos, num contexto em que é necessário ter respostas rápidas para mitigar uma situação.( Riorda.M & Bentolila.S, 2021).

Bentolila reforça que o surgimento de uma crise é inerente á condição humana. A crise de Covid-19 provavelmente fez dela a palavra do século, algo reconhecido e vivenciado por todos.

Embora as crises geralmente sejam subjetivas, esta situação global envolve a todos e dependerá justamente de como nosso psiquismo foi moldado para enfrentar o desafio de manter o equilíbrio entre impulsos, deslocamentos, necessidades e as exigências específicas de uma “nova” normalidade.

Frente a esse fenômeno sem precedentes, pode-se também assinalar que os vínculos conjugais e familiares formam atingidos pela eclosão desta crise, uma vez que a mesma trouxe uma experiência de ruptura da continuidade, associada a uma série de transformações abruptas e inesperadas na vida dos casais e das famílias.

Consequentemente, as relações afetivas, sejam elas conjugais e/ou familiares passaram a conviver a presença de importantes aspectos estressores, intensificando, assim, a sobrecarga emocional e a vulnerabilidade no funcionamento conjugal e familiar.

Em um cenário de crise aguda, terapeutas de casal e família podem atuar no sentido de promover e restabelecer a coesão, a flexibilidade e a comunicação, promovendo um processo de reorganização frente às repercussões da pandemia de COVID-19.

Levando em consideração que as crises podem ser momentos desestabilizadores para os sujeitos, esse artigo tem como objetivo abordar e refletir sobre quais foram os impactos da pandemia e fenômenos associados, nas relações conjugais e familiares, a partir da realização de um levantamento de dados e dos aportes teóricos da psicanálise de casal e família.

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