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A Importância das Formações Identitárias de Professores para o Processo de Ensino

 Renata Schaun

RESUMO

Introdução: Essa pesquisa é resultado da pesquisa que buscou identificar como a formação identitária de professores da alfabetização, em 03 escolas no município de Itabuna, no Brasil, influencia na prática docente, realizando uma interface entre identidadee atuação profissional. Metodologia: Para isso, realizamos uma pesquisa quali-quantitativa, na qual os professores foram observados no ambiente em que atuam e convidados através de questionários semiestruturados a partilhar suas ideias e experiências sobre a docência, tendo em vista suas biografias e formações identitárias. Referencial teórico: Essa pesquisa alicerçou-se sob a égide da Linguística Aplicada e da psicanálise voltada para as práticas de letramento e fundamentou-se em Hall (2011) e Giddens (2002) e Lacan (1962/2003) nos estudos identitários, Coracini (2007) e Moita Lopes (2002) na interface entre linguística aplicada, identidade e educação, Tardif (2007) nas questões docentes e Mainardes (2009) nos fundamentos sobre o Ciclo da Infância. Resultados: Nos resultados alcançados foi observado que as formações identitárias dos professores estão presentes na prática docente, no que tange à escolha do material utilizado, às crenças e atitudes dos professores, à organização do ambiente escolar e aos saberes transmitidos aos alunos através de discursos que trazem elementos identificatórios. Considerações finais: Concluímos através da análise desses dados, que aspectos da identidade pessoal do professor docente permeiam a prática educacional, trazendo elementos subjetivos significantes para o processo de ensino.

Palavras-chave: Ciclo da Infância, identidade, prática docente, professor.

INTRODUÇÃO

Pensar sobre identidades diante das transformações do tempo atual, nos faz refletir sobre o entrelaçar dos nossos “eus” à nossa vida cotidiana, e nos remete a questões tais como: O que nos faz sermos o que somos dentro deste mundo em transformação constante? Como os nossos “eus” influenciam as nossas atividades cotidianas? Principalmente no momento histórico em que vivemos, onde inúmeras formas de ser são aceitas, e não temos um exato padrão a seguir.

 No âmbito educacional lócus desta pesquisa, falar de identidades de professores e de como elas se ligam ao contexto escolar, significa falar da dinâmica do processo identitário de nosso tempo, que não se reduz a uma tarefa técnica ou mecânica, mas é algo que perpassa por nossas escolhas, histórias e vivências sociais.

O interesse por investigar essa temática, foi despertado durante minha prática enquanto coordenadora pedagógica e nos estudos realizados na Especialização em Psicologia Educacional, onde foi percebido que ensinar não se resume a questões intelectuais e metodológicas, mas que há uma influência da identidade dos professores neste processo, principalmente nos níveis iniciais infantis da aprendizagem da língua, onde o professor é um dos modelos pelo qual o aluno elabora sua língua, não só na categoria de criança que está sendo alfabetizada, mas também conhecimentos, valores, identidades e crenças sociais através do conhecimento transmitido no processo de interação professor-aluno (KLEIMAN, 1998).

Para realizarmos este estudo nos embasamos nas teorias lacaniana (1962/2003) que aponta a identidade como uma questão relativa ao sujeito, fundamentalmente sujeitado à linguagem,  de Hall (2011) e Giddens (2002), que discutem os paradigmas identitários no nosso tempo, analisando assim, a identidade do professor no momento histórico em que estamos vivenciando; bem como Coracini (2003) e Moita Lopes (2000) como pontes entre os estudos identitários na área da Linguística Aplicada e o aspecto escolar.

No que tange às teorias pedagógicas, tivemos como alicerce para o estudo do professor, seus conhecimentos e aspectos da docência Tardif (2007). Por último, para estudarmos como a identidade dos professores influenciam no Ciclo da Infância (fase 1), discutimos um pouco acerca dos estudos da proposta pedagógica dos Ciclos em Mainardes (2009) e dos conceitos e processos de letramento em Kleiman (1998), fazendo uma breve referência à Proposta Político-Pedagógica da Escola Grapiúna – Ciclos de Formação do Ensino Fundamental (ITABUNA, 2002), documento no qual se fundamentam as escolas municipais que estudamos, e onde encontramos os princípios, objetivos, história e metodologia que o governo itabunense traz para as escolas de Ciclo.

Com isso, objetivamos apresentar os resultados obtidos, trazendo novos prismas para repensar os padrões educacionais atuais, destacando a importância das identidades dos professores no processo de alfabetização e letramento, e buscando ampliar a compreensão acerca da formação docente.

Por se tratar de uma pesquisa que envolve seres humanos, enviamos todos os dados do projeto para o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Santa Cruz, sob o número 16072113.9.0000.5526, a qual foi aprovada no dia 31 de julho de 2013.

Buscamos com nossa proposta, agregar para uma maior reflexão sobre a complexa prática educativa tomando como recorte o processo de letramento. Pois, como afirma Vasconcelos (2003, p. 12), “quem não se sentir chocado com a complexidade da educação é porque não a compreendeu”.

METODOLOGIA

Para realizarmos esta pesquisa utilizamos estratégias empíricas através do método quali-quantitativo, onde procuramos esclarecer as intenções e significados dos atos sociais sobre o recorte identitário utilizando a via interpretativa, a qual tem como fim compreender e interpretar a realidade, os significados e percepções, e a via quantitativa onde mesuramos alguns dados obtidos.

Outra dimensão da pesquisa foi a naturalista-ecológica, na qual Wilson (1977) propõe que as atitudes e práticas humanas são em parte determinadas pelo contexto e ambiente em que acontecem. Dessa forma, os fenômenos educacionais foram investigados na vida real, no ambiente em que se manifestaram, através de uma observação direta, de maneira que o ambiente em que esses processos se materializaram, foi a fonte de onde se obteve os dados para a pesquisa.

Nesse aspecto, foi aplicado a 03 professores um questionário semiestruturado, combinando perguntas abertas e fechadas onde o informante teve oportunidade de discorrer sobre questões relacionadas à sua identidade. Paralelamente ao questionário, como já mencionamos anteriormente, observamos duas aulas como instrumento de controle das respostas obtidas no questionário, percebendo na prática como essas identidades se apresentaram no fazer docente. Registramos as observações das aulas em gravações áudio, bem como fizemos algumas anotações, para análise.

Faz-se importante ressaltar que a interpretação dos dados e a observação foram de caráter sigiloso e utilizados apenas para o trabalho científico em questão.

ANÁLISE DOS RESULTADOS

A análise dos dados obtidos se refere à identidade docente e sua influência na prática educacional alfabetizadora no Ciclo da Infância (fase 1) em 03 escolas municipais de Itabuna, Brasil.

Dentro do resultado de nossa pesquisa, notamos que as formações identitárias dos professores estão presentes na prática docente, no que tange à escolha do material utilizado, às crenças e atitudes dos professores, à organização do ambiente escolar e aos saberes transmitidos aos alunos através de discursos que trazem elementos identificatórios, o que confirma com nossa hipótese inicial.

Observamos também, que há um papel importante dos saberes docentes para a construção de identidades pessoais e profissionais, influenciando a prática educacional. Saberes estes que são elaborados ao longo do tempo, através da formação pessoal e profissional, e das experiências únicas de cada professor. Isso nos faz perceber que a identidade docente não á algo estático, mas algo que se elabora e reelabora à medida que o professor vai se desenvolvendo profissionalmente e que a cultura em que está inserido se transforma.

A falta de estabilidade e de um modelo profissional único pode ser geradora de incertezas, uma vez que ajustes e reajustes precisam ser feitos constantemente, provocando um processo de reflexão profissional de tempos em tempos.

Mas não só os saberes influenciam na construção da identidade docente, como também as políticas governamentais, as condições de trabalho, o material didático utilizado, as crenças, o tempo de trabalho, a cultura em que está inserido e as experiências pessoais e profissionais. Isso evidencia que o professor é um profissional dinâmico, e que múltiplos fatores influenciam na sua prática, crenças e identidades gerando inúmeras possibilidades educacionais.

Através dos dados obtidos observamos que é importante o professor assumir uma postura reflexiva, não só acerca de questões metodológicas e cognitivas, como também aspectos relacionados à sua identidade pessoal e profissional, pois elas se fundem em uma só dentro de sua prática, podendo influenciar positivamente ou negativamente no processo de aprendizagem dos alunos do Ciclo da Infância (fase 1).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A alfabetização, iniciada na escola brasileira em ciclos no Ciclo da Infância (fase 1), tem sido uma questão bastante discutida entre educadores e autoridades governamentais. Isso se deve a fatores que divergem em interesses, mas desejam o mesmo fim.

Para aqueles preocupados com os aspectos humanísticos do processo educacional, a alfabetização é a porta de entrada para o mundo letrado, o que provoca uma abertura de consciência do mundo que nos cerca, gera autonomia no pensar e liberta as pessoas de estruturas sociais que desejam dominar os ignorantes através de uma obediência cega e um conformismo com as condições de vida que se encontram.

Já para os preocupados com o desenvolvimento econômico social, a aquisição da leitura e da escrita é o ponto de partida para a criação de profissionais mais qualificados, que atendam as demandas ocupacionais exigidas na atualidade.

Diante disso, o professor desta etapa educacional passa a ser uma das ferramentas chave para o desenvolvimento e a reflexão da sociedade. O trabalho que ora apresentamos nos permite então chamar a atenção para o quanto as formações identitárias dos professores são importantes para a prática docente, principalmente na etapa escolar estudada.

Existe, portanto, um consenso dos vários autores citados ao longo desta dissertação onde afirma-se que o docente não pode mais ser percebido apenas como um técnico em questões educacionais imerso em metodologias e técnicas, mas também como uma pessoa, que realiza em si constantes processos de mudanças que afetam sua prática. 

Notamos assim, que o desenvolvimento pessoal e profissional do docente é um processo complexo, inserido dentro de inúmeras teias que são tecidas conforme sua posição em relação a múltiplas, multifacetadas e muitas vezes, em situações contraditórias, os quais, portanto, promovem significações, pontos de vista, valores morais, crenças, expresso nos discursos elaborados pelos vários interlocutores educacionais situados em diferentes contextos (sociais, científicos, legislativos, sindicais, etc.). Suas identidades dão então, sentido as suas concepções educacionais.

De acordo com as análises dos dados obtidos, percebemos que é impossível compreender a questão da identidade docente sem inseri-la diretamente na história, nas suas ações, nos seus projetos, práticas e no seu desenvolvimento profissional.

Nosso estudo indica que a interação e a prática dos professores não se restringem a um desenrolar de acontecimentos objetivos. Ao contrário, sua trajetória profissional, social, pessoal geram marcas existenciais que, por sua vez, marcam sua particular maneira de ensinar. Graças a esses recursos pessoais é possível realizar uma maneira humana e significativa de educação, que toca o ser humano tanto positivamente quanto negativamente, podendo imprimir marcas que ecoam por toda a vida.

Assim percebemos diante da nossa questão de pesquisa “Como as formações identitárias dos professores influenciam na prática docente do Ciclo da Infância (fase 1) em 04 escolas do município de Itabuna?” que há uma influência das formações identitária dos professores nas suas crenças sobre o aluno, a escola e o ensino, na sua maneira de interagir com o aluno, nos conteúdos abordados, nas normas sociais e saberes (pessoais e profissionais) transmitidos. O que confirma nossa hipótese inicial que as formações identitárias dos professores influenciam na abordagem do conteúdo e sua transmissão e a relação professor-aluno, trazendo elementos além de metodológicos e teóricos, identitários para a prática docente.

Observamos assim, que o eu não é então, uma unidade passiva, mas que interage, influenciando e sendo influenciado. Dentro dessas interações forjamos nossas identidades, na qual transformamos e somos transformados por pessoas, sociedades e instituições que estamos inseridos.

REFERÊCIAS

CORACINI, M. Subjetividade e identidade do(a) professor(a) de português In:  CORACINI (Org.) Identidade e discurso, (des) construindo subjetividades. Campinas:UNICAMP, 2003.

GIDDENS, A. Identidade e modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.

ITABUNA. Proposta Político-Pedagógica da Escola Grapiúna – Ciclos de Formação do Ensino Fundamental. Itabuna: Prefeitura de Itabuna, 2002.

KLEIMAN, A. A construção de identidades em sala de aula: um enfoque interacional. In: SIGNORINI, I. (Org.) Linguagem e Identidade. São Paulo: Mercado das letras, 1998.

LACAN, J. O seminário, livro 9: a identificação (1961-1962). Recife: Centro de Estudos Freudianos de Recife, 2003.

LIBÂNEO, J. Didática, velhos e novos temas. Edição do Autor, 2002.

MAINARDES, J. A escola em ciclos, fundamentos e debates. São Paulo: Cortês, 2009.

MOITA LOPES, P. Identidades fragmentadas: a construção da raça, gênero e sexualidade na sala de aula. São Paulo: Mercado das Letras, 2002.

TARDIF, M. Saberes docente e formação profissional. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

VASCONCELOS, S. O Début, inaugural, no discurso do professor de português como língua estrangeira sobre sua formação profissional In: CORACINI (Org.) Identidade e discurso (des) construindo subjetividades. Campinas: UNICAMP, 2003.

WILSON, S. The use of ethnographic techniques in educational research. Review of Educational research, v. 47, p. 245-265, 1977.


[1] Graduada em Filosofia (UESC), Psicóloga (CRP 03/21898), Psicanalista (SOBPIEX 0699003), Supervisora Clínica Especialista em Psicologia Educacional, Mestre em Linguagens e Representações (UESC), Doutoranda em Psicologia (UCES), Pesquisadora do Instituto de Altos Estudios em Psicología y Ciencias Sociales (IAEPCIS).

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