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Análise dos Discursos dos Desejos Masculinos nas Músicas de Funk

Renata Schaun (renataschaun@gmail.com)

João Paulo Corumba de Santana (jpcorumba@hotmail.com)

Susana Sneiderman (susanasneiderman@hotmail.com)

Introdução

Dentro da perspectiva de análise discursiva do ADL, analisamos três músicas do gênero funk mais tocadas em casas de festa e diversão em todo o Brasil em janeiro de 2020 de acordo com o ranking do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas aos seus autores no Brasil.

Nesse contexto, foram selecionadas as músicas “Melemolência” composta e cantada por Edson Alves, nome artístico Mc Dynho Alves, lançada em 2018 no álbum com o mesmo nome da música; a música “Vamos Pra Gaiola” composta e cantada por Kevin de Oliveira, Nome Artísitico MC Kevin o Chris, lançada em 2018 no álbum Evoluiu (ao vivo); e a música “Ela é do tipo” composta e cantada por Kevin de Oliveira, nome artístico MC Kevin o Chris em 2019 no álbum Pra Paredão. Essas músicas ocuparam respectivamente o sexto, o oitavo e o nono lugar no ranking de músicas mais tocadas em Casas de Festas em janeiro de 2020 segundo a ECAD.

Para a análise das três amostras de músicas utilizamos como instrumento a grade para detectar os desejos nos atos de fala do ADL. Tomamos como unidades de análise dos desejos os versos das músicas de funk. A investigação revela-se quantitativa, no que tange a observação e frequência dos tipos de desejos que surgem nas músicas e qualitativa no que diz respeito à interpretação dos resultados.

Discussão dos Resultados

Nas músicas estudadas foram encontrados atos de fala ainda não contemplados dentro da tabela de atos de fala do Algoritmo David Liberman.  Na erogeneidade Fálico Genital observamos atos de fala com referência a movimentos corporais sedutores, convite com referência ao ato sexual e manifestações de desejo do tipo sexual. Dentro da erogeneidade Oral Secundária, percebemos como atos de fala: convite e rejeição de envolvimento afetivo e por último, na Libido Intrassomática: onomatopeia de sons de movimentos sexuais.

No que tange a análise das letras em todas as composições observamos prevalência dos desejos da erogeneidade Fálico Genital, tendo a música “Malemolência” o percentual de 44,35%, a música “Vamos para a gaiola” 42,15% e a música “Ela é do tipo” 55%.  Nesse contexto há o desejo pela estética, a beleza. O modo de vinculação é com a finalidade de possuir e seduzir, o que interessa é causar um impacto estético para capturar o olhar. Sua versão disfórica implica no rechaço estético.  Os sentimentos passam por um filtro da fascinação estética ante a um objeto exibicionista que produz encanto ou horror. Dentro das ações motrizes se privilegia o movimento ondulatório, harmônico e sistemático que pode estar ligado ao sexual e ao genital. Os movimentos são atrativos e tendem a agradar, baseado na estética.

A segunda erogeneidade prevalente em duas das três músicas analisadas, “Vamos pra Gaiola” e “Ela é do tipo” foi o Sádico-Anal Secundário com 31,5% e 30% respectivamente. Nessa erogeneidade há o desejo de dominar o objeto em um marco de juramento público (Maldavsky, 2004). Há o interesse em dominar o objeto em relação aos aspectos agressivos e sádicos que tentam controlar. A versão contrária aparece a perda do controle, da ordem e da hierarquia moral. No estado afetivo prevalece a angústia do tipo moral, quando se perde o controle e a ordem, aparecem também a insegurança e a dúvida associados a sentimentos de desesperança. A ação motriz prevalente é ritualizada e obedece a pautas culturais.

Por último, a segunda erogeneidade prevalente, encontrada na música “Malemolência” é a Libido Intrasomática, onde se encontra um desejo do equilíbrio das tensões. Nessa erogeineidade o corpo traduz enquanto aquele a nível orgânico, o discurso do organismo é que se revela, os discursos se voltam para a elucidação da alteração interna somática. O estado afetivo encontra desestimado, em seu lugar se fala de dor ou alívio. Há uma motricidade que busca novamente a descarga e a regulação de emoções.

Uma vez que essas músicas foram escritas por homens entre 22 e 23 anos e têm uma prevalência de assuntos de caráter sexual, notamos que elas expressam dentro do caráter Fálico Genital um desejo de completude estética, de seduzir e possuir com o fim a realização do ato sexual, sendo a música, uma forma exibicionista de usar a fala e a voz como meio de conquista e sedução para atrair o objeto desejado.

Com relação aos desejos referentes à fase Fálico Genital, observa-se o grande valor que esses homens dão ao seu órgão genital e seu orgulho viril, pondo as mulheres em uma posição de objetos de desejo para a satisfação libidinal ou de descarga das tensões, principalmente através do ato sexual.  Isso é observado nos atos de falas prevalentes referentes a essa erogeneidade nas músicas: Convite com referência ao ato sexual 15,8%, Referência a movimentos corporais sedutores 26,3% e Manifestação de desejo do tipo sexual 55%.

Nota-se ao realizar um paralelo entre as músicas que não há um investimento para o feminino como um objeto de ligação. O lugar de representação e afeto pelo outro encontra-se desestimado, há apenas o desejo por alívio da descarga pulsional através do gozar nesse outro. Os atos de fala prevalentes estão relacionados ao Movimento com ritmo sequencial, típico do ato sexual.

Assim observamos que as músicas estudadas trazem temas eróticos e tem como centro a figura feminina, seja no lugar objetos de desejos masculinos, seja como objeto para descarregar suas tensões pulsionais.

Vale notar que os termos utilizados para a figura feminina nas músicas analisadas são “A dona da porra toda”, na música “Malemolência” e “Novinha”, “Vamos pra Gaiola” e “Ela é do tipo”.  A dona da porra toda coloca a mulher num lugar receptáculo que possui o gozo, ou melhor, do esperma do homem, sendo essa música a segunda erogeineidade prevalente a Libido Intrassomática, já nas outras duas composições, que tem como segunda prevalência a erogeneidade Anal Secundária, o termo que se utiliza é o “novinha”, forma do senso comum brasileiro chamar pré-adolescentes e adolescentes, apresentado o desejo de um ato sexual juridicamente transgressor.

Considerações finais

Ao longo desse trabalho observamos o quanto o ADL se apresenta como um valioso instrumento psicanalítico para a análise dos desejos nos discursos e como um importante instrumento para realizar a análise de letras músicas, no nosso recorte, o funk brasileiro. Esse estilo musical, que ocupa lugar de destaque na rotina urbana e se configura como um poderoso meio de significação e de possível construção de subjetividades no âmbito brasileiro.

Com o aporte do ADL estudamos os desejos dos discursos masculinos nas letras de Funk brasileiro, e encontramos na prevalência dos assuntos de caráter sexual contidos nas músicas um desejo de completude estética, de seduzir e possuir com o fim a realização do ato sexual. Esse desejo se complementa com a segunda eregeneidade prevalente encontrada, a libido intrassomática, na qual percebemos a realização do ato sexual como desejo em que a dimensão afetiva se encontra desestimada.

Além dos desejos analisados, as letras das músicas de funk nos proporcionaram encontrar possíveis atos de fala ainda não contemplados na grade dos atos de fala elaborados por Maldavsky, sendo este trabalho uma possiblidade de ampliação do instrumento de pesquisa utilizado, o Algoritmo David Liberman. 

Essa é uma temática vasta e instigante que nos lançam outros questionamentos para investigações futuras que não puderam ser contempladas nessa pesquisa, tal como em termos sociais, porque a canalização das pulsões masculinas nos cantores de funk tem sido destinada ao sexo em que há uma resistência a ligações afetivas.

Assim concluímos esse trabalho abrindo possibilidades para novas pesquisas científicas sobre as músicas de funk e o ADL.

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